quinta-feira, 28 de maio de 2015

O desapego e o sal

Não paro de aprender com esse exercício.
O mais difícil de tudo, para mim,  foi me desapegar daquilo que criei. O sentido do texto e das palavras começam a rodopiar quando trocamos os verbos. E como foi muito difícil largar o que eu escrevi. O sentido que dei as palavras.
Na primeira versão desse exercício eu tive tanta dificuldade de largar as figuras que criei com as letras, que não tive outra opção a não ser reescrever o mesmo texto com o mesmo sentido. Mas ai visitei a borboleta e fui atropelada pela sagacidade dela ao trocar o tempero do texto. Então refiz o meu também. E já fiz esse pensando nas próximas possibilidades...

Com voces o Exercício 2 novamente.





Eu não poderia responder direito a questão, desconfio nem mesmo perceber qual o exercício. Quer saber a frequência da atividade? Sobre como meço meus avanços? Sobre meu ritmo?
Queria correr diariamente. Não interessa exatamente quanto tempo por dia, mas acho que 30 minutos diários seria bom.
Adoraria que minhas passadas marcassem, como fotografias antigas que quando avistamos impulsionam  memórias do que passamos em outros tempos, lembranças que ocultamos e depois buscamos. Sentimentos que passeiam empoeirados nos recantos mais profundos de nós mesmos. 
Amaria que meus passos dissolvessem reencontros de mim hoje, com essas que deixei em outras épocas, com outras que ainda não encontrei.
Aceitaria que meu estilo aflorasse como as mãos hábeis de um dentista que mergulha num dente sem anestesia. Que desfere aquela broca infernal de maneira a retratar toda parte estragada pelas cáries sem afrontar nervos, sem solidificar a dor. 
Correr  para sufocar o peso que palavras me atribuem, colocando beleza nos olhos que me observam. Sonhava correr como respiro, que eu pairasse, que flutuar se fizesse inerente, que findasse vital. Que, mesmo com dor, eu continuasse correndo, como se não houvesse quando. Correr apesar das costelas quebradas.
Desejo correr em prosa e em versos também. Correr para transbordar essa barragem de mim em água corrente nas torneiras ou num rio que vagueia sem freios e acaricia a terra, cobrindo-a de vida. Correria sem a cobrança interna de encontrar a todos, mas meu eu megalomaníaco só aceita correr como água, só aceita correr como ar, que sacia a todos, dos quais todos solicitam para continuar.
Correr para tocar o verde das folhas das árvores no início da primavera. Um verde fresco e luminoso. Um verde repleto de esperança e profundo em beleza. Adornando galhos que até a pouco ostentavam deserto e desolação sob o sol frio e distante do inverno ou envoltos de neve e gelo das tempestades. Correr com a cadência da vida que se recolhe no frio para aflorar com o calor da estação seguinte.
Queria correr sem freios apesar das dores físicas e psicológicas que a corrida às vezes me causa. Poderia acontecer? Aceitar correr sem medidas, sem competições, sem afagos de ego. Sem, me declarar a mais rápida, a mais poética, a mais sincera, a mais carne viva, a mais bonita. Correr sem me sentir mesquinha, imatura, fútil ou infantil. Imagine correr em letras de água. Imagine correr em letras de ar.
Qual a possibilidade de existir um ego mais megalomaníaco que o meu?



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