sexta-feira, 29 de maio de 2015

Mais uma vez o sal






Eu não quero atrapalhar a questão ou mesmo o exercício. Quero refletir sobre a frequência da atividade. Quero devanear sobre como distribuiria meus abraços. Quero imaginar como abraçar melhoraria minha vida. Abraçar diariamente não importa quantas vezes por dia. Abraçar por horas, pessoas de todos os  tamanhos.

Inventaria que meus textos abraçavam como fotografias antigas que, quando encontradas revelam o fundo da mente. Desenterram memórias do que ficou de outros tempos, lembranças que embaralhamos  depois de retratadas. Sentimentos escondidos nos recantos mais profundos de nós mesmos. Deleitaria me abraçando reencontros de mim hoje, com essas que adorei em outras épocas, com outras ainda que não consigo encontrar.

Receberia meu estilo envolvendo-o como as mãos hábeis de um dentista que conserta um dente sem anestesia. Que ambiciona, com aquela broca infernal, desmantelar toda parte estragada pelas cáries sem colher um nervo, sem mobilizar dor. Abraçar para confiscar o peso que estas palavras me despertam, injetando beleza nos olhos que me sabem. Adoraria abraçar como descanso, entregando-me fácil, não, que a entrega me soubesse inerente, que me adivinhasse vital. Que mesmo com dor abraçar continuasse importando. Como quando amamos e vivemos apesar das costelas quebradas.

Adoraria abraçar em prosa ou em versos também. Abraçar transpondo essa barragem de mim em água corrente nas torneiras ou num rio que serpenteia sem freios e seduz a terra que transborda de vida. Adoraria abraçar sem cobrança interna de comover a todos, mas meu eu megalomaníaco só se permite envolver como água, só se permite deslizar como ar, que a todos acalma e do qual todos se servem para existir.

Adoraria abraçar para encantar como o verde das folhas das árvores no início da primavera. Um verde fresco e luminoso. Um verde impregnado de esperança e abundante de beleza. Escondendo galhos que até a pouco anunciavam deserto e desolação sob o sol frio e distante do inverno ou mascarados de neve e gelo das tempestades. Adoraria abraçar com a determinação da vida que enfrenta o frio para rejubilar-se com o calor da estação seguinte.

Queria abraçar sem freios apesar das distancias físicas e psicológicas que às vezes se impõem. Como proceder? Queria abraçar sem medidas, sem competições, sem afagos de ego. Sem me importar com, rapidez, poesia, sinceridade, cruezas, bonitezas. Queria abraçar sem ser mesquinha, sem ser imatura, fútil ou infantil. Imagino abraçar como a água. Imagino envolver como o ar.

Impossível haver um ego mais megalomaníaco que o meu?









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