Eu não quero atrapalhar a questão
ou mesmo o exercício. Quero refletir sobre a frequência da atividade. Quero devanear sobre como distribuiria meus abraços. Quero imaginar como abraçar melhoraria minha vida. Abraçar diariamente não importa quantas vezes por dia. Abraçar por horas, pessoas de todos os tamanhos.
Inventaria que meus textos abraçavam como fotografias antigas que, quando encontradas revelam o fundo da mente. Desenterram
memórias do que ficou de outros tempos, lembranças que embaralhamos depois de retratadas. Sentimentos escondidos nos recantos mais profundos de nós
mesmos. Deleitaria me abraçando
reencontros de mim hoje, com essas que adorei em outras épocas, com outras ainda que não consigo encontrar.
Receberia meu estilo envolvendo-o como as mãos hábeis de um dentista que conserta um
dente sem anestesia. Que ambiciona, com aquela broca infernal, desmantelar toda parte
estragada pelas cáries sem colher um nervo, sem mobilizar
dor. Abraçar para
confiscar o peso que estas palavras me despertam, injetando beleza nos olhos que me sabem. Adoraria abraçar como descanso, entregando-me fácil,
não, que a entrega me soubesse inerente, que me adivinhasse
vital. Que mesmo com dor abraçar continuasse importando. Como quando amamos e vivemos apesar das costelas quebradas.
Adoraria abraçar em prosa ou em versos também. Abraçar transpondo essa barragem de mim em água corrente
nas torneiras ou num rio que serpenteia
sem freios e seduz a terra que transborda
de vida. Adoraria abraçar sem
cobrança interna de comover a todos, mas meu eu megalomaníaco só se permite envolver como água, só se permite deslizar como ar, que a todos acalma e do qual todos se servem para existir.
Adoraria abraçar para encantar como
o verde das folhas das árvores no início da primavera. Um verde fresco e
luminoso. Um verde impregnado
de esperança e abundante de beleza. Escondendo
galhos que até a pouco anunciavam
deserto e desolação sob o sol frio e distante do inverno ou mascarados de neve e gelo
das tempestades. Adoraria abraçar com a determinação da vida que enfrenta o frio para rejubilar-se com o calor da estação seguinte.
Queria abraçar sem freios apesar das distancias físicas e psicológicas que às vezes se impõem. Como proceder? Queria abraçar sem medidas, sem
competições, sem afagos de ego. Sem me importar com, rapidez, poesia, sinceridade, cruezas, bonitezas. Queria abraçar sem ser mesquinha, sem ser imatura, fútil ou infantil. Imagino abraçar como a água. Imagino envolver como o ar.
Impossível haver um ego mais megalomaníaco que o meu?

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