Quarta feira da semana passada foi seu aniversário. Eu lembro do dia em que te vi pela primeira vez. Estávamos no corredor do CAC-UFPE esperando o começo de uma aula de geometria analítica. Era minha primeira semana de aula na universidade. E eu analisava e prestava atenção em todos.
Eu achava a vida universitária tão irreal. Eu era tão imatura, e vivia dias difíceis por causa da morte repentina de meu pai alguns meses antes. Eu lembro a roupa que você usava. A camisa lilás, de mangas curtas, de botão, de um tecido fino que parecia seda e uma bermuda jeans desbotada, com um tênis surrado branco e meias!
Achei tão feio aquele tênis com meia e pensei que você era um tipo estranho... A imaturidade nos faz ser essas pessoas bobas que julgam as outras pelas meias que elas usam, vergonha de mim!
Reprovamos juntos aquela disciplina, mas perdi você de vista. Você não era da minha turma, estava lá junto com um monte de outros alunos, de vários períodos diferentes, que não conseguiam se ver livre daquela disciplina, cheia de formulas e teoremas, que até hoje não entendo e me tomou vários anos antes de, finalmente, eu ter saco de decorar e passar.
Mas o assunto não é a matemática e o calculo que estudamos juntos na Universidade. E sim o nosso encontro que demorou tanto tempo para acontecer. Eu e minha imaturidade demoramos um monte para querer ficar perto de você. Lembro de você em outras ocasiões durante o curso, você ficou amigo de todas minhas amigas antes de eu te dar alguma atenção. Meus preconceitos eram difíceis de se desfazer naquela época, gosto de pensar que estou menos preconceituosa hoje em dia.
Quando finalmente uma das nossas amigas resolveu chamar você para fazer um trabalho em grupo conosco já estávamos no fim do curso. Lembro ter ficado danada da vida porque achava que você não era uma boa escolha. Fizemos a equipe então, pois ou era você ou outro que eu do alto da minha soberba julgava ainda pior. Você foi para mim naquele momento dos males o menor. Era 1996 e juntos novamente reprovamos a disciplina e um mês depois começamos a namorar.
Para mim foi uma surpresa. Só nos falamos depois das aulas por que seu pai faleceu, e me solidarizei com você, te chamei para ir no cinema naquela sexta feira sem nenhuma segunda intenção. Assistimos Bonequinha de Luxo numa sessão de cinema de arte, e depois esticamos a noite num bar. Entre uma cerveja e outra aconteceu nós.
Hoje está perto de fazer 15 anos que estamos juntos. Descobri você, sua doçura, e com ela o amor que antes de você não era mais do que um borrão. Juntos estudamos, viajamos, trabalhamos e construímos nossa família. Descobri com você ou por sua causa que amor não nasce pronto que cresce aos poucos e precisa de muito cuidado senão murcha.
Hoje como no início estamos nós juntos lutando pelos nossos sonhos, procurando o melhor para nossos filhos, cultivando nosso amor nessas terras geladas daqui. Eu me aprendo a ser e me reinvento aqui. Tento descobrir o que sou de verdade, você me lembra de quem eu sou e era antes de ser mãe, para me ajudar.
Você é o melhor companheiro que uma aprendiz de feminista pode ter. Tem suas falhas e seus defeitos e quase sempre reclamo de você e acho que poderia fazer mais. Mas não preciso nem de cinco minutos para entender que sou reclamona e tenho muito mesmo o que agradecer. Viver com você me fez notar como sou privilégiada.
3 comentários:
Que lindo.
Me emocionei com seu relato.Lembrei muito de minha sobrinha de 16 aninhos que diz que conhece TUDO de uma pessoa pela roupa.
Pois é...já fomos assim.
Oi Cynara,
A gente é cheia de certezas quando jovem né? Que bom que crescemos e nos enchemos de dúvidas, e inquietações. Hoje penso que ainda bem que apesar de demorar um bocado finalmente deixei o preconceito de lado!
Obrigada pela visita! volte mais!
Que texto lindo!! Fiquei emocionada duplamente, pela sua demonstração de afeto e pelas minhas experiências, descobertas afetivas no CAC e CCEN, seu texto me trouxe muitas lembranças. Um beijo!
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