Estupro tem aparecido recorrentemente na tela do meu computador. Não sei se há um aumento nos números, talvez tenha se denunciado mais. Talvez finalmente a sociedade comece a acordar do torpor de achar que estupro é igual a sexo. Eu espero que assim seja, espero do fundo do meu ser.
Esta semana porém me deparei com o horror de uma história macabra, que parece mais ficção do que a realidade crua e brutal. Foi difícil conseguir aceitar que isto que aconteceu é mesmo a realidade. Na segunda pela manhã soube da história horrível do crime que aconteceu em Queimadas. Um crime planejado e oferecido como presente de aniversário a um dos criminosos. Um crime que atingiu a vida de 7 mulheres, que foram estrupadas, duas delas, por reconhecerem seus algozes foram também mortas. Esta história me deixou atordoada, me tirou o chão.
Não é possível continuar vivendo nesse estado de torpor que a sociedade brasileira se encontra. Mulheres não podem ser vistas como objetos inanimados, que vivem, apenas, para servir e satisfazer os propósitos sexuais de homens. Mulheres são pessoas e devem ser tratadas como tal. São cidadãs. Os 10 homens que, de comum acordo, planejaram e levaram a cabo seus planos de dispor dos corpos de mulheres sem se importar se elas estavam de acordo ou não com o ato, eles não são psicopatas. Esses 10 homens que amarram, amordaçaram, espancaram e estupraram essas mulheres. Eles não o fizeram por serem psicopatas nem por serem bandidos. Eles são homens que acham certo o que fizeram pois não veem mulheres como pessoas. São homens que acham que um estupro é uma oportunidade, ou que isso não é o fim do mundo, nem tira pedaço de ninguém. São homens que acham que as mulheres os provocaram e por isso levaram o que mereceram.
Inacreditavelmente mesmo diante da brutalidade dos fatos, do horror dessas mortes, os grandes veículos de radiodifusão de notícias mantiveram-se mudos até agora. Um dos 10 homens envolvidos no crime tem parentes importantes na cidade. O dinheiro dele tem abafado o caso e o crime foi afastado dos holofotes da grande mídia. Não sei o que mais me choca: o crime hediondo ou essa vergonhosa cumplicidade da imprensa. Imprensa que se vende, desavergonhadamente, aos interesses dos que tem poder aquisitivo. Ao invés de cumprir seu papel de informar a sociedade.
Eu fiquei muito atordoada com esse crime! Essa violência tem que acabar. Eu recuso um mundo assim! Simplesmente não me serve viver com medo e cerceada da minha liberdade. Eu sou uma mulher e eu não quero esse mundo em que mulheres tem medo apenas por serem mulheres! Tratemos de mudá-lo rápido! Não vou deixar isso, que chamam realidade, mas é o mais cruel que o pior pesadelo, como herança para meus filhos. Não aceito isso. Machismo mata. Machismo existe é sobre ele que está baseada toda a nossa cultura e sociedade. Foi ele, o machismo, que serviu de inspiração para a barbárie funesta que se reproduziu nesse episódio de Queimadas e em tantos outros dos quais não temos notícia, mas acontecem todo dia embaixo dos nossos narizes.
Vamos parar de hipocrisia e de achar que quem age assim são apenas os bandidos e psicopatas. Vamos acabar com essa ilusão que nós e nossas famílias não seremos jamais vítimas, pois não nos metemos com más companhias, sabemos escolher bem nossos amigos. Machistas todos somos! Esse machismo que é banalizado em piadinhas e brincadeirinhas, que só as feministas mal-humoradas não entendem. É o mesmo machismo que nos cega e nos deixa surdos, às marcas da violência e aos gritos de socorro das mulheres vítimas dessa realidade Hedionda! Acordemos!
Este texto é parte da blogagem coletiva em Repúdio ao Crime de Queimadas das Blogueiras Feministas.
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