Eu, meus cabelos, meu orgulho, minha consciência negra.
Cabelos cacheados, pele morena, filha de um negro (?) - meu pai sempre se disse moreno - com uma branca (?) mamãe é loira mas tinha tia e primos negros que assim como meu pai eram ditos morenos e foram excluídos do convívio da gente. Embora uma dessas primas tivesse minha idade, e morasse mais perto de nós, do que todos meus outros primos, nunca brincamos juntas.
Senti o preconceito desde cedo, na sala de aula, na casa de vovó, que junto com titia vivia achando receitas para consertar meu cabelo, dar um jeito na juba dessa menina que tem o cabelo igual aos dos negros do Santa Cruz. Cresci ouvindo isso. Enquanto eu era pequena e não tinha direito de me rebelar e visitava vovó para ouvir sempre esse mesmo comentário maldoso, junto com a receita para fazer o cabelo ficar estirado.
Quando cresci aos poucos me afastei. Amava vovó, mas né, ninguém precisa ser lembrada o tempo todo de como não é loira e linda como define o padrão. Padrão para que? Para quem?
Mamãe achava papai lindo por que ele não era "branquelo sem sangue", mas achava nossos cabelos ruins e difíceis e feios... Passei a infância de cabelos curtos como um menino era assim que mamãe descrevia para o cabeleireiro o comprimento do corte do meu cabelo. Para não ter choradeira na hora de pentear.
Cresci e deixei o cabelo crescer, mas não saíram da minha cabeça as vozes que me dizem como meu cabelo é arrepiado, desarrumado e feio. Quando uso meu cabelo comprido, como agora, ele fica quase sempre preso, escrava que ainda sou do olhar padronizado de beleza Européia.
O tempo passou, e em certa medida, aceito me orgulho dos meus cachos não aliso, não faço nenhuma química, mas também não me aceito totalmente eu me podo, para ficar aceitável, ao meu olhar que carrega a crítica escutada desde sempre, para domar minha juba.
Mas ela é indomável, ela é selvagem. Essa é sua força, sua beleza é o não conformismo. Eu sei disso. Só os grilhões ou talvez nem mesmo eles podem contê-la. Minha juba é espelho da força dessa cultura que apesar de subjugada e oprimida, resiste, conquista, e se impõe.
Meu cabelo foi por muito tempo, o motivo do preconceito que sofri. Me orgulho do meu cabelo aprendi a cuidar dele aprendi a amá-lo. São meus cabelos que hoje me definem. Aprendi a ser negra sambando maracatu e seguindo os afoxés nos carnavais de Olinda e Recife. Aprendi a ser negra ao aceitar minha cabeleira. O Brasil precisa aceitar e a se orgulhar de ser negro. Negros somos todos nós como bem disse a Borboleta

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