quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Faz vinte anos hoje que meu pai faleceu. 1990 portanto.
Meu pai, filho de uma lavadeira com o seu patrão, minha avó era mãe solteira, meu avô tinha outra família.
Papai tinha 4 irmãos, eles eram pobres, tiveram uma vida difícil. Papai contava com orgulho que a parteira disse a minha avó, que ele não se criaria, nasceu prematuro e muito pequeno... Mas se criou, trabalhou desde criança, fazia bicos: foi engraxate, teve um fiteiro*, sem parar de estudar...
Enquanto estava na Universidade, trabalhou num jornal fazendo serviço de rua e depois num laboratório farmacêutico, estudava à noite. Formou-se e começou a trabalhar na CHESF, morreu antes de se aposentar 4 meses antes, para ser exata.
Mamãe trabalhava mas, quando casou com papai ele morava em Paulo Afonso, trabalhando na CHESF, então ela largou o emprego e foi para lá com ele. Papai sustentou nossa família sozinho, não éramos ricos, mas vivíamos bem, a casa era própria, tínhamos carro, estudávamos em escolas particulares, éramos três e papai ainda ajudava a família. De todos os irmãos, ele era o único que tinha formação universitária, trabalhava num empresa do governo e tinha estabilidade financeira...
Em 1989 votei pela primeira vez, votei no Lula, nos dois turnos, papai votou em Ulisses, e no segundo turno votou em Lula, papai foi o primeiro voto que ganhei pro Lula, mas não foi suficiente, Collor venceu!
E em 1990, Collor tomou posse, e lançou se plano de confisco econômico. E começou a série de desmandos. Não me lembro em que mês, começou uma greve dos Urbanitários, e meu pai aderiu...
Essa grave durou muito tempo, realmente não me lembro quanto, mas meu pai sofreu muito, ele era muito conhecido na empresa e querido pelos seus colegas, todos contavam seus problemas a ele. Quando a greve finalmente acabou, ele foi vítima de retaliações.
Ele era assessor de um dos diretores e foi retirado do cargo que foi entregue a um aliado político da presidência da empresa. Ele ficou muito abalado. Lembro dele falando com mágoa que queria sair da CHESF, ele deu entrada na aposentadoria, contou todos os meses de trabalho, inclusive esses que fez antes de formado, para conseguir o tempo suficiente, tamanha era sua insatisfação.
Ele perdeu o cargo de chefia, passou semanas perambulando pela empresa nem mesmo uma mesa para chamar de sua ele tinha. Perdeu a alegria de ir para o trabalho, o entusiasmo, ele amava o que fazia. Mas nada está tão ruim que não possa piorar. O cargo dele era comissionado, ele perdeu também uma parte do seu salário. E com todas as economias da sua vida presas no banco, iríamos passar necessidades. Não sabíamos de nada disso. Ele sofreu isso tudo sozinho, ele não falou para ninguém em casa, nem para mamãe!
Ele ficou remoendo isso por meses. Até que seu coração não aguentou. Teve um enfarte fulminante e não nos vimos nunca mais... Depois de passado o turbilhão, no qual sua morte nos jogou, descobrimos que o saldo do banco estava negativo, já no dia 19/10 e não teríamos como fazer feira, muito menos como pagar as contas...
E por uma coincidência 21 anos depois o Brasil está na mesma situação, sob o risco de voltar àquela época, tão horrível, dos desmandos políticos, dos jogos de interesses, da política feita exclusivamente para encher os bolsos alheios, e não para fazer melhorar a vida da população. Tenho consciência de que o governo do Lula teve seus defeitos, alguns deles bem graves, mas também vejo o que ele fez de bom em tão pouco tempo. E há ainda tanto para fazer...
Não acredito que Serra seja a pessoa que levará adiante essas mudanças. Ele foi ministro por oito anos e não fez metade do que a Dilma fez no mesmo período.
Por isso e para que algo parecido com o que nos abateu, não aconteça numa outra família, pela irresponsabilidade do meu voto ao eleger os dirigentes da nação, eu voto Dilma!

Um comentário:

Ana Diniz disse...

Ei Liliane! Pode colocar o texto "Para a Mulher brasileira", de Romeu Sabará, no seu blog à vontade. Quanto ao Dia Lilás, ocorrerá aqui em BH na próxima quarta, dia 27, ao meio dia, na Pça 7. Nos vemos lá! Abraços.