quinta-feira, 2 de julho de 2015

Enquanto houver pessoas



Outra vez o exercício 5 

Traduzir a música sem usar o texto. Essa música me comove, mas não tem uma letra. A melodia acompanha um discurso. Não é um poema. São fragmentos de textos de autores diferentes. A música embala as palavras mas uma não se encaixa na outra, mas se harmonizam, se complementam.



Les Ogres de Barback são quatro irmãos músicos. Um quarteto de cordas. A música “tant qu’il y aura des hommes” é uma melodia suave e melancólica. Sobre a melodia a voz de um homem declama ou discursa o extrato de textos de Hubert Reeves astrofísico franco-quebequense e de Daniel Mermet jornalista e escritor francês.

“Je pense que l'humanité n'est pas nécessairement la favorite de la nature, que l'humanité peut très bien disparaître, que nous ne sommes pas une espèce sacrée, qu'il y a eu 10 millions d’espèces animales jusqu’ici et que 9 millions ont été éliminées. On est pas l'espèce élue comme on l'a cru longtemps. La Nature peut très bien se passer de nous... et c'est nous qui pouvions nous écouter.

Dans un millénaire, on parlera encore de ce millénaire. On ne sait jamais ce que le passé nous réserve, mais l'avenir ne reviendra pas. Et dans ce millénaire, c'est ce siècle qui fera date, et qui fera tache. Un siècle de turpitudes. Nous en sortons exténués, inhibés, esquintés. La queue entre les jambes de l'humanité.

Nuit et goulag. Charnier et brouillard. Dans la nuit, les feux d'artifice projettent les ombres de la Kolima, d'Hiroshima, et des trains pour Aushwitz, plutôt que le premier pas d'un homme sur la lune. Einstein tire la langue ; ou la beauté d'un Lagardère. Mais l'une des ruses de l'histoire veut que les siècles commencent et finissent là où ils veulent. Ainsi de Sarajevo à Sarajevo, notre siècle a pris fin dans les débris de la chute du mur de Berlin. Fini le siècle des grandes impuissances, voici venu le siècle de l'évidence. Fin de l'histoire, pensée unique, nouvel ordre mondial. Plus rien à voir, circulez.
Nous avons obtempéré. Nous circulons, sans rien voir.”

Eu quis traduzir esse texto que é declamado, mas as palavras, mesmo na língua original, não tem o peso das cordas. Sua dança, sua sensualidade, sua determinação. As palavras parecem não abarcar as urgências das cordas. A história que elas me contam, essa estória circular de repetições, de reproduções de rotinas vazias de sentido, essa corrida que pretendemos linear mas que é circular. As cordas me dizem que andamos sem avançar, me dizem que ouvimos sem escutar as belezas que nos cercam, as cordas me dizem das vidas que vivemos enquanto adoramos deuses materiais e imateriais. As cordas choram as mágoas e dores de guerras e mortes e outras tristezas profundas. As cordas me fala de possibilidades e impossibilidades, de realidades de realidades insuportáveis mas que se reproduzem repetitivamente. Os violinos soluçam não só pelos mortos, mas pelos que vivem sem admirar, sem se deixar levar pelo tanto que somos, pelo tanto que temos.
A melodia fala de belezas pequenas que não alcançamos por pura distração. Pela ilusão de sermos muito maiores do realmente somos. Porque esquecemos que somos poeira e átomos aglutinados, que somos energia volátil. Esquecemos de olhar enxergando tudo que nos cerca, por não ver despedaçamos tudo o que deveria ser preservado, nos despedaçamos a nós mesmos. E seguimos nessa corrida louca pelo que jamais possuiremos. Na corrida louca para alcançar o que não é feito para nós. Seguimos no deserto de nós mesmos, de miragem em miragem sem ver, cegos pelo tempo que passa. Apressados seguimos sem nem mesmo olhar pela janela, sem entender que o que vemos é o que somos.

Nenhum comentário: