Eu tinha esse amigo, a vida, o tempo, a distancia acabaram por nos separar, apesar de eu guardar ainda no coração o afeto sincero que tive por ele. Mas essa não é a história, a história é que ele tinha, ou tem ainda, uma miopia fortíssima.
E nessa época em que nossa amizade era mais estreita eu assisti um filme, não lembro qual agora e não quero perder o foco na história antes que ela se perca nas voltas que minha mente dá. Escrever é, às vezes (quase sempre) uma corrida contra o tempo, que é marcado numa ampulheta gigante em que meus pensamentos são a areia caindo pelo buraco minúsculo, eu tenho que escrevê-los antes que desapareçam pelo ínfimo orifício para um outro compartimento ao qual não tenho acesso, ou esperar que eles voltem, um dia, quando a ampulheta inevitavelmente virar. Fim da digressão.
Nesse filme o protagonista tinha uma um problema de visão e o filme era sobre a deterioração e da eventual e inevitável perda da visão que esse problema causaria. Numa parte do filme ele diz que tudo é um borrão e se dá conta que mesmo encarando a ducha do chuveiro de perto não consegue ver nem mesmo a água que sai dele.
Então um dia conversando com esse amigo sobre esse filme perguntei a ele, que é bem alto, se conseguia enxergar a água saindo do chuveiro ele disse que não a não ser que tomasse banho de óculos ou de lentes de contato. E morremos de rir da ideia leza que é tomar banho de óculos.
Nos últimos anos, nesse em especial, tenho percebido mais e mais a dificuldade de enxergar sem os óculos na hora do banho. Isso complica a lavagem dos cabelos por que é difícil ler os rótulos das embalagens do xampu e do condicionador. A perda da visão de perto que acontece depois da chegada dos 40 tá batendo forte por aqui. Sempre usei óculos, mas sempre enxerguei minimamente bem a água que sai do chuveiro e os rótulos dos produtos que uso. É o fim de uma era.
Mas esta história toda surgiu dessa cota que achei no mural do facebook da Renata Lins:
" 'Que olhos bonitos voce tem', ela me disse quando tirei os óculos. E naquele instante, seu rosto era o borrão mais lindo que eu já vi."
Os rostos, e os rótulos estão ficando mais borrados do que costumavam ser, mas ainda dá para ver as belezas que existem por ai! E as coisas que ainda vejo me ajudam a lembrar dos amigos e das amizades que esquentam e esquentaram o meu coração nessa vida. A lembrança traz ainda outras belezas que não preciso dos olhos para ver.

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